Círculo Virtuoso

Com freqüência, recebemos consultas relacionadas aos mecanismos de fundraising (literalmente levantamento de fundos) e fontes de financiamento de projetos sociais.

Os seminários, workshops e palestras seguem mais ou menos os mesmos formatos, e os temas recorrentes estão relacionados justamente à geração ou arrecadação de fundos via mala direta, licenciamento de marca social voltada para a venda de produtos, teletons e eventos especiais.

Esses temas e as principais perguntas dos dirigentes de instituições sociais refletem a justa e válida preocupação com o custeio de projetos e ações sociais, sejam orientados a sua implantação ou manutenção, e/ou ampliação.

A receita tradicional parte da existência de um projeto, usualmente meritório, e segue na direção da busca de financiadores governamentais, instituições nacionais e internacionais e, de modo crescente, nos últimos dez anos, empresas que se interessem por expressar sua responsabilidade social, apoiando ações sociais, além de pessoas físicas, em geral alcançadas por anúncios, mala direta e/ou telefone.

Estamos seguros de que não existe nada de errado ou criticável nesta fórmula. Mas sinceramente, acreditamos que o conhecimento e a prática desses mecanismos não sejam suficientes para oferecer uma base sólida que possa garantir a sonhada sustentação de um projeto de longo prazo.

Que tal refletirmos um pouco sobre a inserção, aceitação e reconhecimento desse projeto na comunidade? O alinhamento da proposta com as políticas públicas; a interação dessa ação social com outras que possam complementá-la e/ou enriquecê-la; o potencial inovador da proposta; as relações custo/beneficio; a formação de redes de atendimento e até mesmo a qualidade do projeto elaborado. Que tal uma reflexão sobre os financiadores que gradualmente se tornam mais exigentes e mais participativos? Que importância pode assumir a organização e eficiência da instituição no processo de obtenção de financiamentos e até mesmo de apoios eventuais? Os dirigentes e técnicos estão qualificados para alcançar os objetivos propostos? A intervenção social proposta é cientificamente aceitável e viável?

Pois é! Quantas perguntas e dúvidas.

Poderíamos prosseguir levantando questões mais ou menos relevantes para o processo de financiamento de projetos ou ações sociais. Não o faremos. Vamos tentar olhar um pouco para os bem-sucedidos. O que eles têm em comum?

O sonho de todo dirigente de instituição social – ver seu projeto reconhecido e apoiado – encontra, na prática, um ambiente complexo e competitivo. As instituições estrangeiras reduziram seus investimentos no Brasil durante a última década, o número de instituições concorrentes aumentou sensivelmente e os convênios com os diversos níveis de governo, quando alcançados, não são suficientes para “tocar o projeto”.

Qual o caminho do sucesso?

Os bem-sucedidos têm muito em comum. Compartilham, principalmente, a habilidade de estabelecer um diálogo com a sociedade. De que forma?

Percebem as necessidades de um grupo específico ou da sociedade como um todo, encontram soluções técnica e economicamente viáveis, preparam um projeto inteligível e bastante completo (problema, proposta de solução, orçamento claro, cronograma, bom monitoramento e avaliação durante e ao fim de cada período planejado e, principalmente, um bom registro dos resultados).

E, sobretudo, são negociadores hábeis e respeitosos para vender suas idéias e projetos. Ao estabelecer esse diálogo, criam o que muitos denominam “Círculo Virtuoso”, que consiste em propor para a sociedade a solução de um problema que a aflige, solicitar e obter a sua participação e cumplicidade, retornar com informações claras e convincentes sobre a evolução e resultados do projeto, e novamente expor o que ainda falta para realizar e reiniciar o ciclo de entendimento.

Parece simples, mas não tanto. Para cada uma dessas fases, são exigidas habilidades específicas, conhecimento técnico, bastante humildade e desprendimento para aceitar e considerar a inevitável participação dos financiadores e doadores no encaminhamento dos projetos. A maioria dos bem-sucedidos não depende de apenas uma fonte. Em geral, estabelece algumas alianças e parcerias com governo, empresas, outras instituições e cada vez mais com pessoas físicas. Reúnem-se em associações e promovem intercâmbio de experiências. Os líderes parecem conseguir compor uma combinação rara de forte determinação idealista e sonhadora com uma visão de marketing social bastante racional. Sabem sonhar e vender seus sonhos, sem perder a necessária dose de realismo para perceber o que é viável.

O mercado social, o Terceiro Setor e os administradores, em geral sensíveis a essas necessidades, têm reagido de forma construtiva, promovendo a capacitação dos dirigentes de instituições sociais num crescente animador. Sobram bons exemplos. Basta acompanhar as agendas de eventos de dois ou três sites e o dirigente se defronta com uma ampla oferta, difícil de ser assimilada até mesmo pelos mais animados. Faculdades incorporam a matéria administração/gestão/gerenciamento de entidades sociais em seus currículos. Associações criam núcleos de estudos. Sites especializados orientam os potenciais voluntários. Cria-se até mesmo uma Universidade do Terceiro Setor. Grupos de Administradores com MBA se organizam para voluntariamente oferecer capacitação gerencial. É tudo muito estimulante e promissor.

Nesta altura, podemos afirmar com segurança que o processo de profissionalização do Terceiro Setor segue acelerado, sendo inevitável que muitos daqueles que não conseguirem acompanhar esse movimento sucumbirão como qualquer organização humana.

Nesse processo de profissionalização, existem muitos caminhos e nenhum pode ser desprezado. Por exemplo, a contratação de serviços de terceiros pode ser uma boa solução. Se uma instituição precisa de serviços de comunicação e criação, mas não em volume que justifique a contratação de um profissional em tempo integral, não deve improvisar. Normalmente, contando com a boa vontade dos seus empregados e colaboradores, sente-se atraída pelas soluções caseiras. É preciso muito cuidado, pois nem sempre fica garantida a qualidade necessária.

Os líderes das instituições bem-sucedidas desempenham um papel crucial e parecem ter em comum alguns valores e percepções que, certamente, os ajudam a focalizar com propriedade os temas que abordam. Em geral, têm sensibilidade para o contexto político e socioeconômico.

A ética e a sensibilidade para o senso comum delimitam suas decisões a cada passo, o que garante a credibilidade da própria instituição. Por exemplo, que percentual das doações recebidas uma instituição poderia investir para gerar novas doações? Como reagirá um doador ao saber que, do valor de sua doação, foram usados dois terços para custear a obtenção de mais doações?

Qual o limite razoável de retenção de fundos para custeio de despesas administrativas num determinado tipo de projeto? Talvez, a resposta esteja associada a sua própria eficiência administrativa. Quanto deve ganhar um diretor, de acordo com as possibilidades abertas pela lei das OSCIPS?

Num mundo em que as comunicações e informação em geral se intensificam, em que os doadores se tornam mais críticos e participantes, em que a sociedade cobra ética e coerência dos seus atores sociais, existiria alguma fórmula para o sucesso? Quem sabe um novo ramo da literatura “Auto-ajuda para as ONGs”?

Certamente não existem fórmulas, mas sim, um permanente processo de aprendizagem, intercâmbio e construção democrática de soluções para os problemas que afligem a humanidade, coletiva ou individualmente.

Esse processo está totalmente interligado e dependente de outros igualmente ricos como a evolução do papel do Estado, das Instituições, das Empresas e dos Indivíduos.

Finalmente, a melhor lição e estímulo que podemos receber daqueles que conseguem construir e sustentar esse Círculo Virtuoso de relacionamento com a sociedade é a sua própria existência e sucesso, que nos mostram que é possível perseguir e realizar nossos sonhos.

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