Era uma vez dois garotinhos, André e Bernardo, que moravam em uma casa de assistência, junto com muitos outros órfãos. Os dois tinham um monte de coisas em comum, tal como a idade, altura, peso, cor e até um hábito bem peculiar: Toda terça e sexta-feiras iam juntos à capela do orfanato para rezar. Rezavam com firmeza de propósito mesmo, com fé calorosa e espontânea, que só as crianças são capazes de ter, e enchiam o papai-do-céu de pedidos.
Uma certa vez, André sugeriu que rezassem, pedindo papais e mamães para todas as crianças órfãs do mundo. No dia seguinte, Bernardo propunha um pedido de comida para os que tinham fome. E assim, iam revezando na escolha do tema e se esforçando para não deixar ninguém de lado. Bernardo até aceitava pedidos dos amigos vez ou outra e, entre o abrigo para os que não têm onde dormir e o fim das guerras no planeta, incluía os seus próprios pedidos, que também eram os mesmos para os dois, um pai e uma mãe que os amasse de verdade.
Um dia, Bernardo encontrou com a Tia Jandira, a coordenadora do orfanato, quando estava indo para a capela.
– Oi, tia! Tô indo falar com Deus! Quer que eu faça algum pedido pra senhora?
– Eu quero é que você pense bem sobre as coisas que pede a Deus e veja o que você pode fazer pra ajudá-lo a realizar esse pedido. Muitas vezes, é preciso muito menos do que imaginamos.
Sem entender direito, Bernardo deu um sorriso meio sem graça e foi encontrar André na porta da capela.
Alguns minutos depois, Tia Jandira vem trazendo um casal candidato pelo pátio. O casal entra na capela e vê os dois garotos de mãos postas. André percebe e cutuca Bernardo com o cotovelo. Bernardo vê o casal e, um mais firme que o outro, se voltam para a oração, pedindo com todas as forças por uma intervenção divina. Um tenso e o outro duro.
De repente, como se uma onda de calor percorresse seu corpo, Bernardo ergue os olhos e interrompe a reza por um instante. Olha pra cima, para a imagem de Nossa Senhora no vitral da capela e, lembrando-se das palavras da Tia Jandira, vira-se pra trás… com um sorriso tímido… para uma mulher carente.


