A essas questões contrapõe-se a figura mítica do deus romano Janus, de cabeça com duas faces posicionadas em sentidos opostos: uma olha para um lado e a outra, para o lado contrário, de forma aparentemente dual e conflitante. Ainda se faz a sobreposição ao semblante do gestor de projetos sociais: a face masculina atua com a razão objetiva por meio da pesquisa, da reflexão, da organização de dados e informações, viabiliza condições operacionais para a realização dos próprios projetos (planejamento estratégico, captação e administração de recursos, negociação, controle, supervisão), acompanha e avalia resultados, além de, eventualmente, buscar novas parcerias.
O semblante oposto, sujeito feminino por excelência – referência fundamental ao sujeito masculino, simultaneamente também por ele respaldada – permite-se dominar pelo sentimento e se indignar contra as injustiças e desigualdades sociais, delira em projetos visionários e se emociona com o retorno dos índices junto à comunidade beneficiada, com sua cumplicidade em relação aos resultados alcançados e com o trabalho anônimo, silencioso e desinteressado dos voluntários da equipe.
É assim o profissional do Terceiro Setor, que converge harmoniosamente suas duas faces de Janus – o comprometimento profissional com a instituição a que serve e sua paixão à causa social – para o alcance de um objetivo comum: a realização do projeto social. Ele permite que aflorem ambos os semblantes da maneira que senso e sensibilidade lhe impõem naquele instante, sem negar ou camuflar a emoção, mas sempre privilegiando o eixo de equilíbrio em que se integra o objetivo maior de suas ações profissionais. Sem a prevalência da angústia, do arrefecimento da vontade ou do equilíbrio, mas na conduta ética e persistente dos desejos pessoais e institucionais de alcance social.
E o ator social voluntário? Em que bases conceituais e técnicas deverá o profissional sensibilizá-lo e comprometê-lo à prática, a partir de programas de voluntariado empresarial? O conceito do “ser” ou “estar” voluntário poderá auxiliar na visualização das diferenças entre duas dimensões de comprometimento institucional e de consciência de cidadania.
Campanhas, quando bem coordenadas, costumam ser ótima primeira experiência de “estar” voluntário. O sentimento da prática da cidadania compartilhado com pessoas de mesma sensibilidade social provoca rápida identificação e vínculos. O resultado das ações, em geral de retorno mais visível, quase imediato, também contribui para que essa atividade voluntária se faça singular, frente a quaisquer outras intervenções particulares, geralmente sofridas ou mal sucedidas. Se da marca bem sucedida de “estar” voluntário resultarem novos desejos, com novas experiências de trabalho voluntário, está aberto o caminho, o que não significa, todavia, o suficiente para o “ser” voluntário.
A transição do “estar” para o “ser” voluntário pode ser longa, e até mesmo nunca ocorrer, mas torna-se marcante por uma alteração radical de consciência do indivíduo em relação aos valores da humanidade, à vivência incondicional de solidariedade, a um profundo desejo de mudança e da percepção da própria capacidade de intervenção nessa realidade. Quando se verifica, coexistem ainda toda uma força e energia estruturadas por meio de ações e resultados, construídos e compartilhados no dia-a-dia. E para os quais a instituição organizacional terá como contribuir decisivamente com o suporte adequado.
No entanto, esse caminho de “ser” ou “estar” voluntário é raramente identificado em ambientes corporativos. Torna-se, portanto, muito delicada a tarefa profissional de sensibilização do funcionário à cumplicidade da ação social, em integração às propostas da empresa e, mais além, em harmonização a uma cultura institucional ainda em formação. Ambientes corporativos, criando e compartilhando propostas mais amplas de interesse da sociedade, ainda são pouco difundidos. Um fenômeno relativamente recente no processo de desenvolvimento social brasileiro – a construção de uma governança corporativa vinculada a valores éticos de solidariedade e inclusão social. Isso exigirá do profissional do Terceiro Setor não apenas paciência e delicadeza no processo de sensibilização, mas cuidados redobrados na abordagem das etapas do planejamento estratégico para a implantação de um programa de voluntariado empresarial.
Profissionais-voluntários e voluntários-profissionais – recursos humanos do Terceiro Setor atuando juntos em ambientes corporativos. Eles são o ponto de partida para a prática da cidadania corporativa com um suporte adequado da gestão da responsabilidade social pelos programas de voluntariado empresarial.
Esses cidadãos, conscientes de sua força de transformação social, preparam-se profissionalmente para dar conta – em um grau além da formação acadêmica, dos recursos institucionais disponíveis para o projeto e da crua realidade social a enfrentar – de uma proposta, esta sim, especialmente privilegiada na esfera do desenvolvimento sustentável econômico e social: a construção de uma Rede Global, baseada na ética da solidariedade e voltada à paz social.


