Entretanto, mesmo contando com maior apoio, as instituições têm dificuldades em garantir a própria sustentabilidade. Falta de recursos financeiros, humanos, materiais, problemas burocráticos e de gestão são realidade de grande parte das entidades e podem muitas vezes minar boas iniciativas.
Dentro desse prisma, a luta pela sobrevivência dos que compõem o Terceiro Setor vem promovendo, notadamente, união ainda mais estreita entre as entidades sociais. A tendência, portanto, é o fim do isolamento e, com isso, alcançar o objetivo final de garantir melhores condições sociais à comunidade como um todo.
A esse encontro de organizações em torno de um mesmo ponto (uma causa, um tema específico, uma mesma localidade), baseado numa estrutura horizontal, democrática e igualitária, dá-se o nome de Redes Sociais.
Seja no âmbito individual (cada entidade) ou grupal (a própria rede), os benefícios são muitos e o ganho, de todos, ao mesmo tempo em que ambos visualizam o fortalecimento e a implementação de idéias e ações comuns.
Mais que isso, a formação de redes sociais pode ser a grande resposta do Terceiro Setor, num plano macro, para o desenvolvimento de uma nova estrutura organizacional mundial e de um novo modo de relacionamento interpessoal mais justos e sólidos.
No que se refere ao setor social, a Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits) define redes como “sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e instituições, de forma democrática e participativa, em torno de objetivos e/ou temáticas comuns”.
Esta forma democrática e participativa está baseada justamente “em relações horizontais, interconexas e em dinâmicas que supõem o trabalho colaborativo e participativo”.
A partir desse entendimento, poderia se dizer que tal conduta organizacional é a que melhor guiaria todo tipo de convivência humana.
No entanto, a sociedade infelizmente ainda está centrada numa estrutura vertical, tradicionalmente piramidal e rigidamente hierarquizada. Para compreender o que isso significa, tome como exemplo o corpo de uma empresa: a ponta da pirâmide seria constituída pelos cargos de presidência e diretoria, enquanto que a base seria formada pela massa de funcionários.
Essa e outras diferenças entre redes e pirâmides mereceram inclusive um artigo de Francisco Whitaker, secretário executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da CNBB e organizador do Fórum Social Mundial.
Em Rede: Uma Estrutura Alternativa de Organização, Whitaker comenta, a respeito da organização piramidal: “É um tipo mais usual por causa da influência da cultura e dos modos de agir dominantes. Imita-se, quase naturalmente, a estruturação piramidal da riqueza e do poder na sociedade em que vivemos”.
Segundo ele, a luta pelo poder e a competição são as principais dinâmicas perversas que se estabelecem nas pirâmides entre quem deseja “subir” de posição, podendo originar toda forma de manipulação.
Já as redes, em contraposição, têm seus integrantes ligados horizontalmente, eliminando a idéia de um chefe, de uma figura central, dando lugar a inúmeras pessoas que se unem “como uma malha de múltiplos fios, que pode se espalhar indefinidamente para todos os lados”.
Por isso mesmo não há como “subir” a um nível mais alto do que os demais, “nem pretender concentrar ou esconder informações: a livre circulação de informações é a condição básica da existência das redes”, explica Whitaker.
É a essa maneira de participação social que o movimento do Terceiro Setor tem se associado, como resultado da necessidade de pessoas e organizações em potencializar atividades e mesmo otimizar recursos com a troca de informações e experiências.
Dada a facilidade e a rapidez na comunicação, inúmeras redes virtuais têm povoado a internet. A própria Rits é exemplo disso, trabalhando na área da informação e se ligando a outras redes.
Uma dessas parceiras é a Abong (Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais), que tem hoje cerca de 250 associadas, entre as quais promove fóruns e redes diversas.
Daquelas apoiadas pela Abong, podemos citar a Rede Brasileira de Educação Ambiental; a Articulação no Semi-Árido Brasileiro; a Rede Nacional de Saúde e Direitos Reprodutivos; fóruns nacionais: de Assistência Social, de Mulheres Negras, de Participação Popular e de Reforma Urbana; e muitos outros exemplos de articulações.
Especialmente no caso das redes presenciais, a participação mais efetiva das organizações envolvidas pode depender de uma maior sistematização e planejamento das reuniões.
Nesse caso, por não haver a figura de um líder – já que todos atuam em mesmo grau de importância – existe a necessidade de um mediador ou facilitador para fazer a interface entre os participantes, orientando-os e dando a dinâmica das reuniões, inclusive para que a rede não saia do foco proposto.
Em face do sucesso do projeto, cursos como confeitaria e cabeleireiro eram cada vez mais procurados por instituições de toda a cidade de São Paulo. “Achávamos que não seria possível dar conta de tantos pedidos”, diz Jorge Silveira Duarte, gerente do Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor e gestor do projeto Rede Social do Senac-SP.
Para resolver a situação, e ao perceber que poderia realizar outros tipos de ações com as comunidades, o Senac-SP decidiu reunir líderes de organizações para conhecer melhor as demandas e as reais necessidades.
Assim, em 98, organizou uma reunião com instituições de uma mesma região, com a participação de 15 representantes. “Na ocasião, houve, naturalmente, troca de informações e interesses que pareciam beneficiar as entidades. Isso nos despertou o desejo de fomentar novos encontros”, relata Duarte.
Outras reuniões se seguiram e, aos poucos, foi se constituindo o que hoje são as redes sociais apoiadas pelo Senac-SP. Atualmente, elas seguem uma metodologia própria, consolidada desde 99, que se conceitua por: “reunir e organizar pessoas e instituições de forma igualitária e democrática, a fim de construir novos compromissos em torno de interesses comuns e de fortalecer os atores sociais na defesa de suas causas, na implementação de seus projetos e na promoção de suas comunidades”.
Para estabelecer parâmetros próprios sobre sua função dentro da rede, a entidade se define como articuladora, mediadora, parceira em projetos e capacitadora. No que se refere à mediação, o Senac-SP procura mobilizar instituições, organizar encontros, levar informação aos integrantes e fazer circular e registrar as informações, ações, decisões e atividades.
Ao seguir a metodologia de redes sociais do Senac-SP, as entidades têm em mãos uma ferramenta capaz de colocar em prática planos que muitas vezes ficavam somente no papel. “Sobravam idéias que não se transformavam em projetos claros nos quais a sociedade pudesse investir. Hoje, o objetivo é fazer das reuniões algo mais efetivo, com a saída de propostas voltadas para a melhoria da comunidade”, diz Duarte.
Pioneira entre as redes formadas pela instituição, a Rede São Luis foi constituída oficialmente em 1999 e atualmente congrega 27 organizações, contando com diversos parceiros, como o Banco do Brasil, Alcoa, Instituto Pão de Açúcar, Sesc, Senai, universidades, governo estadual e municipal.
Entre as principais ações realizadas, destacam-se os projetos Site Solidário e o Mais Saúde na Comunidade.
O primeiro teve como propósito contribuir para a inclusão de organizações sociais na internet, possibilitando a divulgação de ações e programas.
O projeto já contemplou 40 entidades na região sul da cidade de São Paulo, sendo que outras 20 serão incluídas no segundo semestre desse ano. Para tanto, foram capacitadas pelo menos duas pessoas de cada organização na apresentação e manutenção da página da web.
Visando orientar a população para o uso indevido de drogas e a gravidez não planejada na adolescência, uma parceria entre a ONG Barong Interservice, o Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, e o Senac-SP resultou no projeto Mais Saúde na Comunidade.
A ação consiste em oficinas de capacitação de membros de entidades sociais a respeito de doenças como Aids e outras DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). O intuito foi formar até 30 multiplicadores de informação e orientação, a fim de mudar o quadro de saúde local.
Segundo dados colhidos pela rede, o local é um dos mais violentos do mundo, registrando de 15 a 20 óbitos semanais pelas mais diversas causas.
Para tentar reverter esse cenário, as organizações da Rede São Luis estão propondo ao governo e à iniciativa privada a construção de um parque cultural, educacional e esportivo na região, em benefício de toda a comunidade.
Orçado em cerca de R$ 3,8 milhões, o projeto é considerado estratégico do ponto de vista da inclusão social.
Trata-se um grande complexo de 27 mil metros quadrados, que prevê quadras esportivas, piscinas para adultos e crianças, espaço para cursos e atividades culturais, para apresentações de grupos artísticos da comunidade, feiras, eventos e exposições e área verde.
Entidades sociais da região, como a Casa de Cultura e Educação São Luis, também reforçam a importância desse projeto para transformar a difícil realidade da comunidade.
Com sete anos de atuação, a organização se orgulha, hoje, de oferecer atividades variadas aos moradores, entre elas, informática, ginástica, teatro, dança, ioga, oficinas de costura, inglês e espanhol, curso de auxiliar de contabilidade e outras.
Sobre os impactos na vida da comunidade, Nestor não tem dados concretos, mas diz existir pessoas que entraram no mercado de trabalho com a ajuda da instituição. “Quase todos os que saíram do curso de cabeleireiro, por exemplo, estão empregados ou abriram negócios próprios”, afirma.
Segundo ele, a entidade recebe diariamente cerca de 400 pessoas entre jovens, adultos e idosos que participam de atividades livres ou cobradas por um valor médio de R$ 15, voltadas para o pagamento de professores (que ganham em torno de R$ 300) e despesas gerais da Casa.
Para uma organização que não dispõe de nenhum título de utilidade pública, que poderia lhe permitir benefícios fiscais, essa forma de captação de recursos é insuficiente para mantê-la funcionando.
Pensando nisso, Nestor sugere um projeto de uma cooperativa de produção de alimentos, fazendo melhor uso da cozinha profissional da instituição. “Com o apoio de empresas, pretendemos criar um local de exposição e venda de itens aprendidos nos cursos de confeitaria e culinária promovidos pelo Senac-SP”, explica.
O líder reconhece que essas e outras iniciativas elaboradas em conjunto são prova do poder de articulação das pessoas. Inclusive, entende a formação da rede como uma possível mudança de cultura do Terceiro Setor. “Geralmente, as organizações pensam somente em si próprias e não querem compartilhar informações. No entanto, para realizarem um bom trabalho, elas devem ser abertas e saber trocar experiências”, conclui.
Os anos de trabalho com a rede, portanto, permitiram a Jorge compor algumas observações a respeito do contexto atual da sociedade civil organizada.
Falta de planejamento estratégico e dificuldades na elaboração de projetos para captação de recursos são os principais fatores verificados pelo profissional que comprometem seriamente a sustentabilidade institucional das organizações. “Pouco se evoluiu em termos de comunicação, investimentos na formação profissional das equipes, desenvolvimento de metodologias para gerir recursos e serviços. De resultado, elas perdem em visibilidade que pode levar à falta de credibilidade”.
Ele também analisa a relação com o setor privado, dizendo que ainda é tímida e gera muita desconfiança entre as entidades sociais. “A percepção é de que vão tirar algum proveito do seu trabalho. Talvez seja por causa da ausência de conhecimento sobre iniciativas de responsabilidade social corporativa que começam a despontar”.
Por outro lado, há muitos pontos positivos no que diz respeito à atuação de dirigentes das instituições, percebidos por Jorge como lideranças com grande sensibilidade, espírito solidário, predispostas a produzir melhorias no meio social. “Eles tendem a relegar suas necessidades a um segundo plano em favor do coletivo e são inteiramente dedicados às causas”, revela.
Entretanto, ele alerta que a forma de gerenciamento dos líderes nem sempre segue princípios democráticos, parecendo reproduzir o modelo autoritário, “talvez na tentativa de garantir a ordem e a sobrevivência do projeto inicial”.
A partir dessas constatações, o Senac-SP sentiu a necessidade de oferecer um programa de capacitação de longo prazo, mais aprofundado, que pudesse abranger grande número de organizações interessadas numa gestão mais profissional e eficiente.
Como conseqüência, permitiria às entidades participantes estender os conhecimentos para a rede, contribuindo para o fortalecimento do próprio grupo.
Com o apoio do Consulado Geral dos Estados Unidos da América em São Paulo, Secretaria de Assistência Social do município e da Fundação Banco do Brasil, o programa inclui temas como planejamento estratégico, elaboração e gerenciamento de projetos sociais e captação e mobilização de recursos.
Atualmente, o Formatos 500 já alcança sua última etapa, com a incubação de 25 projetos sociais que contam com a assessoria e o apoio técnico do Senac. Os cincos melhores ainda tiveram direito a uma visita monitorada a instituições norte-americanas, realizada no ano passado por representantes das entidades premiadas. As 500 organizações participantes também integram a rede social do Senac-SP.
Segundo o gestor de redes sociais do Senac-SP, a entidade também planeja formar mais sete redes locais na cidade de São Paulo, além das já existentes (Ipiranga, Freguesia do Ó, Carapicuíba, Penha, São Luis, Real Parque, Vila Prudente e a Rede Social de Cultura ligada à Rede São Luis).
A instituição também visualiza este aumento em todo o Estado de São Paulo. “Pretendemos estender nossa metodologia a cerca de 60 outras unidades do Senac”, afirma Jorge.
Ainda está previsto o lançamento de um site totalmente voltado para as redes sociais, com balanço do trabalho das redes e informações de cada organização participante, que também ganhará uma página própria na internet.
Em 2003, 16 entidades inauguraram suas homepages por meio do projeto Site Solidário, da Rede São Luis, em parceria com a Faculdade Radial. “A atualização dos sites será feita pela própria comunidade, devendo conter dados sobre ações e projetos realizados e indicadores próprios de impacto social”, adianta Jorge.
O intuito da instituição, ao final de tudo, é que as entidades possam construir seus caminhos sozinhas e colher futuramente seus frutos, já mais fortalecidas.
Cada uma com a casa em ordem, elas podem, juntas e em rede, ser instrumento poderoso de influência de políticas públicas e, talvez ainda, de transformações sociais profundas e definitivas.
“A proposta é construir, a partir do coletivo, o mundo que queremos. Como o futuro ainda não existe, o amanhã só pode ser hoje. Portanto, é mais do que o momento de enxergarmos nosso entorno e nossas relações, perceber e motivar a força propulsora que existe quando nos organizamos em função do bem comum”, acredita Jorge.
Fonte: Senac-SP


