Contratar bem sempre foi um dos grandes desafios das organizações da sociedade civil. Mas, no Terceiro Setor, esse obstáculo ganha uma camada adicional: não se trata apenas de encontrar alguém tecnicamente qualificado, e sim de identificar pessoas que consigam sustentar, na prática cotidiana, os valores que a OSC defende publicamente. É nesse ponto que o chamado “fit cultural” deixa de ser um conceito abstrato de gestão e passa a ser um fator decisivo de continuidade, engajamento e retenção.
Em muitas OSCs, o processo de contratação ainda é guiado quase exclusivamente por currículo, experiência prévia e domínio técnico. Esses elementos são importantes, sem dúvida. Porém, eles não explicam sozinhos por que algumas contratações prosperam e outras se tornam fontes constantes de desalinhamento interno. O que está em jogo, muitas vezes, não é a competência técnica, mas a forma como a pessoa se relaciona com propósito, colaboração e contexto institucional.
No Terceiro Setor, o trabalho é atravessado por pressões específicas: recursos limitados, alta carga emocional, múltiplos stakeholders e uma relação direta com públicos em situação de vulnerabilidade. Nesse ambiente, o alinhamento de valores não é um detalhe, mas um fator de sustentação do próprio trabalho.
O fit cultural, nesse sentido, não deve ser confundido com “contratar pessoas parecidas” ou com a criação de ambientes homogêneos. É, na verdade, um passo em direção à garantia da coerência entre os valores da organização e a forma como o profissional entende e pratica o trabalho coletivo. Diversidade de trajetórias é desejável; desalinhamento de princípios, não.
Mas como avaliar algo que, por natureza, não aparece claramente no currículo?
Uma contratação alinhada à cultura organizacional começa muito antes da decisão final. Para que a avaliação seja consistente, é importante estruturar o processo seletivo de forma que ele permita identificar comportamentos, valores e a maneira como cada candidato reage a diferentes situações.
Algumas práticas contribuem para tornar essa análise mais objetiva:
Esses elementos não devem ser tratados como um checklist rígido, mas como sinais que ajudam a compor uma leitura mais ampla do perfil do candidato.
Papel da liderança
Outro ponto essencial é o papel da liderança nesse processo. O fit cultural não se sustenta somente na contratação; ele é reforçado, ou enfraquecido, pela forma como a gestão se comporta cotidianamente. Se há incoerência entre discurso e prática interna, mesmo contratações bem alinhadas se desgastam ao longo do tempo.
Além disso, é importante reconhecer que o alinhamento cultural influencia diretamente dois fatores críticos para qualquer OSC: engajamento e retenção. Profissionais que se identificam com a missão da organização lidam melhor com as pressões do cotidiano, demonstram maior iniciativa e permanecem por mais tempo. Já desalinhamentos frequentes geram ruído, desmotivação e alta rotatividade, portanto, um custo alto para estruturas que já operam com recursos limitados.
A aplicação inadequada do fit cultural pode gerar distorções no processo de recrutamento. Quando o conceito é interpretado de forma superficial, decisões tendem a ser influenciadas por preferências pessoais ou critérios subjetivos, reduzindo a diversidade de perspectivas. O desafio está em conciliar valores institucionais compartilhados com equipes capazes de reunir diferentes experiências, repertórios e formas de pensar, condição importante para a inovação e o fortalecimento da organização.
Dito isso, o processo de contratação no Terceiro Setor deve ser parte da estratégia organizacional, e não somente uma etapa operacional. Além de preencher uma vaga, cada nova contratação reforça, ou altera, a cultura interna.
O fit cultural funciona como um elemento de alinhamento institucional, fortalecendo a coerência entre pessoas, valores e propósito. Organizações consistentes costumam formar equipes que compartilham a mesma visão e os princípios que orientam sua atuação, em vez de priorizar apenas agilidade nas contratações ou competências técnicas.
E talvez a pergunta mais importante para os gestores não seja apenas “o candidato é qualificado?”, mas também “essa pessoa ajudará a organização a ser quem ela diz que é?”.
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(*) Thaís Iannarelli é diretora-executiva da Rede Filantropia.
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