Os ovos do druida

Era uma vez, num passado longínquo, um velho druida que fazia uma peregrinação mística, em busca de esclarecimento para os sentidos da vida. Numa caverna rasa da Galícia, ele se preparou para dormir ao cair de mais uma noite em sua jornada. Acendeu a fogueira para manter os animais da floresta afastados e seu corpo aquecido durante a noite toda e se aconchegou para repousar.

Ficou olhando para a fogueira, para o leste. Com uma pontinha de desânimo começou a pensar na longa caminhada que ainda teria pela frente no dia seguinte.

Aos poucos foi ficando mais e mais sonolento, até que dormiu e sonhou com uma montanha imensa, alta e escarpada. Lá em cima dessa montanha havia um ninho e, nele, uma majestosa águia de cara prateada se preparava para alçar vôo.

Ela mergulhou no céu, deu duas voltas e partiu, deixando dois ovos no ninho.

– Esfriou, né?

– É…

– Assim a gente não vai chocar nunca!

– Relaxa!

– Será que é só isso que existe na vida? Esquenta e esfria, esquenta e esfria. A mãe vai e volta, vai e volta. E nós aqui, no escuro, dentro da casca, sem visão nenhuma… o que será que acontece depois?

– Depois do quê?

– Depois que a gente choca. Como será a vida além da casca?

– Como assim?

– Só o que eu sei é que eu sempre fui ovo. Desde que o ninho é ninho, sempre fomos ovo e ovo seremos até chocar. Mas e daí? E além da casca? Sei lá o que tem além da casca! Nunca ninguém que saiu voltou para contar como é. É um lance muito louco… Você está me entendendo?

– Não.

– Eu queria uma prova de que a gente é mais do que isso, sabe? Mais do que somente dois ovos que estão chocando num ninho… Que somos realmente a imagem e semelhança da mãe. Só que, quando ela está aqui, nos sentimos tão aquecidos, tão protegidos. Ela é tão grandiosa, tão poderosa! Eu custo a acreditar que duas bolinhas brancas sem-graça possam sequer chegar a se parecer com ela…

– Tenha fé.

– Fé eu tenho, mas eu queria mais! Queria ter olhos adequados para poder ver o que existe do lado de fora da casca.

– Em terra de ovo, quem tem olho é choco!

– Mas um dia seremos chocos mesmo. Um dia tudo choca e… O que é isso? Que luz é essa? Acho que minha casca quebrou… Quebrou sim! Que linda a luz!

O velho druida acordou com a luz do dia esquentando sua face, por cima do montinho de cinzas. Ele juntou suas coisas, chutou os restos da fogueira, respirou fundo e mirou o horizonte na direção em que seguiria sua viagem.

Mil pés acima de sua cabeça uma águia de cabeça branca grita, chamando sua atenção. O velho apruma seu cajado e continua sua peregrinação com mais uma lição na bagagem: um passo de cada vez e tudo a seu tempo, para vencer qualquer distância e qualquer dificuldade.

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